Desafios complexos demandam transdisciplinaridade e soluções múltiplas, dizem pesquisadores em evento do RCGI.

As universidades e outras instituições de ensino superior são fundamentais para propor soluções ao complexo desafio de enfrentar os graves problemas mundiais, como fome, mudança climática e desigualdade, e contribuir para o cumprimento dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), estabelecidos pela Organização das Nações Unidas (ONU), de acordo com os pesquisadores que participaram do primeiro webinar do evento Triple Helix Series, promovido pelo Research Centre of Gas Innovation (RCGI), no dia 2 de dezembro.

“A universidade é a principal propositora de soluções para a sopa primordial de ideias que podem ser combinadas com os anseios da população”, disse, durante o evento, o professor e biólogo Marcos Buckeridge, diretor do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (USP). “Acho que o que falta, ao menos no Brasil, é a conexão entre a universidade e a sociedade. Isso é chave, assim como trazer os políticos ao jogo e as três partes sentarem-se à mesa para produzir as soluções.”

A perspectiva das universidades ante os desafios da transição energética e da mudança climática no âmbito dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável foi o tema do evento inicial da série Triple Helix, que ao longo de quatro sessões buscará apresentar os pontos de vista da academia, setor privado e governo. “Problemas complexos exigem soluções complexas”, sintetizou Buckeridge, que citou como exemplo a questão das cidades e como torná-las sustentáveis.

Em setembro de 2015 a ONU lançou os 17 Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, que se desdobram em 169 metas e 330 indicadores destinados a causar um impacto positivo sobre as pessoas ao redor do planeta. A chamada Agenda 2030 vislumbra o alcance desses objetivos dentro dos próximos dez anos. Muitos países estão bastante atrasados no empenho para o cumprimento dos objetivos, o que significa que terão de fazer um esforço ainda maior para atingir as metas. A pandemia do novo coronavírus somou-se em 2020 às dificuldades. Quais os desafios, como superá-los e o papel de cada ator para isso foram abordados no webinar de quarta-feira.

A professora Stelvia Matos, chefe do Centro de Administração para Inovação Social (CSIM) da Universidade de Surrey, ressaltou a importância de se criar inovações que beneficiem a sociedade como um todo – e não apenas alguns determinados indivíduos – e da interdisciplinaridade para a solução de desafios. “Precisamos de colaboração entre as diferentes áreas e perspectivas, além da observação de dois pontos importantes: primeiro, se a tecnologia é viável, se o lado ambiental dela de fato funciona e se há viabilidade comercial; e, depois, se há o conhecimento social e cultural necessário para que essa nova ideia ou inovação seja aceita pelos usuários e pela sociedade”, afirmou. De acordo com ela, as inovações sustentáveis podem trazer a ideia de panaceia e paradoxo ao mesmo tempo. “É preciso pensar nas consequências não esperadas da inovação e do empreendedorismo”, sem esquecer das ambiguidades e “objetivos ocultos” das partes interessadas.

Um dos grandes desafios para os pesquisadores, de acordo com Simon Philbin, diretor do Instituto Nathu Puri para Engenharia e Empresa, da London South Bank University, é medir o desempenho no nível dos projetos e das organizações nas contribuições para os ODS. “Um tema comum que apareceu em muitas das apresentações aqui [no webinário] foi a natureza complexa de se lidar com os ODS; a mitigação das mudanças climáticas e a redução nas emissões de carbono podem ser consideradas por si só um sistema complexo e, se acrescentarmos ao mix a questão de como relacioná-las aos ODS, potencialmente estamos lidando não apenas com um sistema, mas um sistema de sistemas. Usar essa perspectiva dos sistemas de engenharia é uma forma de desfazer os nós dessa complexidade que representa o desafio global para várias indústrias, incluindo a de petróleo e gás.”

O professor Flávio Hourneaux, da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA) da USP, afirmou que os institutos de ensino superior estão no cerne dos Objetivos de Desenvolvimento Social, promovendo conhecimento, aprendizado, impacto e colaborações. “Não apenas podemos contribuir para os ODS, mas os próprios ODS podem nos ajudar também para nos tornarmos uma universidade melhor.”

Karen Mascarenhas, diretora de Recursos Humanos do RCGI e pesquisadora do Instituto de Psicologia da USP e do Imperial College London, ressaltou o caráter transdisciplinar necessário para lidar com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável e a importância da ação dentro da própria universidade. “É preciso viver os ODS na prática, absorvê-los no dia a dia do campus, e não apenas ensiná-los. Colocar na prática o que pregamos.”

Do evento participaram ainda o professor Julio Meneghini, diretor científico do RCGI; Adam Hawkes, diretor do Sustainable Gas Institute, do Imperial College London; e Gustavo Assi, diretor de Difusão do Conhecimento e Comunicação do RCGI, que mediou o webinário.

O vídeo com a discussão completa da primeira sessão da Triple Helix Series pode ser conferido em https://www.youtube.com/watch?v=9ql15SLhNjo.