Em palestra, durante sua passagem pelo Brasil, Rocio A. Diaz-Chavez, do Imperial College London, falou sobre o papel da biomassa como fornecimento de energia sustentável.

O sucesso da maior adoção de energia renovável depende da combinação de seus diversos tipos, tais como biomassa, painéis solares, eólica e outros. Durante palestra “Environmental and socioeconomic sustainability in the energy sector”, realizada na última quarta-feira (05/07) no auditório do Instituto de Energia e Ambiente (IEE) da Universidade de São Paulo (USP), a professora Rocio A. Diaz-Chavez, do Imperial College London, destacou a importância de se trabalhar com fontes diferentes.

“Não se pode ficar dependente de apenas um tipo de energia renovável. É preciso combinar várias alternativas, porque não existe uma solução única. E sempre teremos algum aspecto controverso em cada uma delas, mas são decisões que cabem aos países tomar”, enfatizou Diaz-Chavez, cuja visita ao Brasil foi uma iniciativa da equipe do projeto 27 do Fapesp Shell Research Centre for Gas Innovation (RCGI), coordenado pela professora Suani Coelho, do IEE.

A popularização do uso de fontes alternativas de energia se faz necessária para não apenas combater as mudanças climáticas como também para reduzir a falta de acesso à eletricidade por parte das populações carentes. Segundo dados de 2014 da Agência Internacional de Energia (IEA, na sigla em inglês), cerca de 80% do fornecimento global de energia primária provêm de combustíveis fósseis, principalmente, petróleo e carvão. Contudo, a energia que vem do fóssil é limitada e está associada a diversos impactos negativos, como alterações do clima, esgotamento de recursos naturais e poluição do ar.

A preocupação é alarmante. Se a temperatura do planeta aumentar de 2ºC a 3ºC acima da registrada na era pré-industrial, entre 20% e 30% das plantas e espécies de animais estarão susceptíveis de correrem cada vez mais risco de extinção, segundo dados do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, mais conhecido pelo acrônimo IPCC (da sua denominação em inglês Intergovernmental Panel on Climate Change).  “Ambos, mitigação e adaptação, são necessários para reduzir as mudanças climáticas e seus impactos”, ressaltou Diaz-Chavez. “Muitas das pessoas mais vulneráveis à mudança climática são aquelas que mais dependem da biodiversidade”, completou.

Além de atuar no combate às mudanças climáticas, o desenvolvimento e a propagação de fontes alternativas de energia mostram-se como alternativas viáveis para diminuir a lacuna, o gap, de pessoas que não têm acesso à eletricidade. “A pobreza energética (energy poverty) é definida como a falta de acesso à eletricidade e pela dependência do uso tradicional de biomassa para cozinhar”, explicou. “Prover novas tecnologias para que as pessoas tenham acesso à eletricidade ainda é um desafio”, disse, completando que em países na África as pessoas ainda dependem da queima de madeira, um cenário que não mudou nas últimas décadas.

“O desafio para o acesso à energia é global. Existem problemas relacionados à quantidade de população, [à falta de] dinheiro para mudar o uso tradicional”, disse. Políticas de acesso à eletricidade precisam ser endereçadas para chegar às zonas mais pobres. Para isto, uma das alternativas é a melhoria das possibilidades de produção de biomassa para obtenção de formas mais modernas. Para Diaz-Chavez, todos os fatores estão interligados e precisam de uma organização internacional de alto nível para orquestrar as agendas políticas orientadas à obtenção de formas mais sustentáveis de desenvolvimento ambiental, econômico, social e político.

Apesar de todas as formas de energias renováveis existentes, Diaz-Chavez apontou que, do total produzido, 19,2% vem das renováveis, enquanto 78,3% ainda vêm de fósseis e 2,5% de nuclear. A biomassa, acrescentou, corresponde a 14% do consumo final total de energia e do consumo final de energia por setor de uso final. De acordo com a professora, o consumo de biomassa voltado para aquecimento vem aumentando e sua aplicação na área industrial cresceu a uma taxa anual de 1,3% nos últimos 15 anos, principalmente a biomassa sólida. A biomassa pode ser obtida por meio de resíduos animais, industriais, florestais, resíduos sólidos municipais ou resíduos agrícolas, como os provenientes do bagaço da cana-de-açúcar e outras culturas.

Diante de diversas fontes de biomassa disponíveis, Diaz-Chavez orienta que seja feita uma análise caso a caso para entender o tipo mais adequado para cada fim. Do ponto de vista econômico, ela explicou que a cadeia de produção pode ser tanto privada como pública e, inclusive, usar intermediários para se chegar ao produto final. No entanto, a especialista ressaltou que todos os atores (stakeholders) envolvidos na geração de energia renovável precisam estar envolvidos para se alcançar um modelo sustentável.

Perguntada sobre o recurso com maior potencial para ser usado como biomassa na geração de energia no Brasil, a especialista apontou o bagaço de cana-de-açúcar, uma vez que o sucroalcooleiro gera uma grande quantidade de resíduos.

Diaz-Chavez tem vasta experiência na avaliação da sustentabilidade econômica, ambiental, social e político/institucional com aplicação em energias renováveis, em particular em projetos de bioenergia na América Latina, África, Ásia e Europa, incluindo impactos das mudanças climáticas. Atualmente, é membro do Centro de Política Ambiental do Imperial College, como pesquisadora principal e coordenadora de diversos projetos de pesquisa.

No Brasil, a especialista também ministrou um curso de 60 horas para pesquisadores do RCGI, alunos e professores do IEE e alunos do Programa Integrado de Pós-Graduação em Bioenergia da Esalq/USP, entre os dias 26 de junho a 3 de julho.