“Temos de reconhecer que há um desafio com a percepção da CCS, e que para lidar com ele precisamos de liderança e engajamento, além de investir e educar”, afirma expert australiana sobre a atividade em seu país

A cientista social Peta Ashworth, pesquisadora da Escola de Engenharia Química da Universidade de Queensland, na Austrália, esteve no Fapesp Shell Research Centre for Gas Innovation (RCGI) para o seminário Gaining a social licence for energy technology projects, na última sexta (09/11). De acordo com ela, que estuda o futuro da energia sustentável, a confiança do público, quando o assunto são empreendimentos energéticos e afins, baseia-se na percepção que ele tem da competência e da integridade da organização responsável. E mais: é preciso deixar claro quem vai se beneficiar com o projeto, cuja condução deve ser transparente.

“De maneira geral, quando se fala em energia, as pessoas querem que ela seja, em primeiro lugar, acessível; em segundo, confiável e, em terceiro lugar, aí sim, que ela tenha baixa pegada de carbono. Os impactados por um projeto energético ou afim querem saber, no fundo, se poderão ter voz no processo e se alguém vai ouvi-los. Nesse sentido, as pessoas  tendem a se sentir do mesmo modo, no mundo todo.”

Segundo ela, na Austrália cerca de 85% da energia vem de fósseis, e cerca de 70% da população tem real preocupação com as emissões e com a política climática. Um dos desafios da transição para energias mais limpas, disse ela, é que se trata de algo bom para o mundo, mas os riscos e os impactos dos empreendimentos são locais. “Encontrar esse balanço é muito difícil. A licença social para operar não é uma licença formal, ela não é dada pelo governo ou qualquer outra instituição. Ela tem de ser conquistada.”

Peta afirmou, ainda, que a probabilidade de ter uma licença social dependerá do grau de concordância entre as expectativas individuais do público em relação ao comportamento corporativo e o comportamento real das empresas.

E mencionou um exemplo: a indústria de gás não convencional na Austrália não tem, nas cidades, licença social para operar, mas em algumas comunidades em que a atividade é desenvolvida, ela existe.

“Aconteceu que, em algumas comunidades, a atividade de fracking elevou o manto de água, permitindo o aceso ao recurso com poços menos fundos. As comunidades realizam testes frequentes de água, em conjunto com as empresas, para saber se está tudo em ordem. É tudo bastante transparente. Entretanto, os cidadãos urbanos têm uma grande influência sobre os nossos políticos, porque têm uma voz mais forte que as vozes das comunidades.”

É fácil saber quando uma operação não tem licença social para operar, disse Peta. “Ocorrem reclamações da vizinhança, bloqueios, protestos comunitários. A licença social é algo complexo, que se conquista com o tempo e se desenvolve pelo relacionamento com a comunidade, com respeito e confiança entre as partes. E é algo que pode ser facilmente perdido, bastando um escorregão da empresa.”

De acordo com ela, a questão chave para qualquer comunidade impactada por grandes projetos – e isso inclui as novas tecnologias de geração de energia bem como projetos de Carbon Capture and Storage (CCS) e outros – é: como eles afetam os meios de subsistência e o estilo de vida das pessoas? “Entender isso é a chave para os empreendedores saberem o que devem fazer para preservar os meios de subsistência e o estilo de vida das comunidades em que irão atuar.”

CCS – A pesquisadora forneceu dados de um recente levantamento comparativo realizado por ela e sua equipe, junto a colegas da Academia Chinesa de Ciências, no tocante aos conhecimentos da população em geral acerca de novas tecnologias ligadas à energia e a seu financiamento, nos dois países (China e Austrália). “Os chineses tendem a avaliar mais positivamente seus conhecimentos sobre tecnologias energéticas do que os australianos. Mas, em ambos os países, há pouco conhecimento sobre biomassa e CCS.”

Quanto a financiamento, entre 12 diferentes tecnologias energéticas elencadas no levantamento, a CCS apareceu em 8º lugar como método que merece ser financiado, na Austrália (à frente do carvão, da biomassa, da nuclear e do gás de carvão), e em 10º na China (na frente apenas do carvão e do gás de carvão).

Na Austrália, a percepção de que as vantagens da CCS como opção de reduzir carbono superam seus possíveis riscos não chega à metade da população (45%). Na China, esse número sobre para 55,8%. Entretanto, 66,9% dos australianos acha que as vantagens das energias renováveis como opção de reduzir carbono superam seus possíveis riscos, e na China, 74,6% pensa da mesma maneira.

“Temos de reconhecer que há um desafio com a percepção da CCS, e que para lidar com ele precisamos de liderança e engajamento. Precisamos, também, investir e educar.”

Após a palestra, Peta respondeu perguntas dos presentes, entre os quais estavam o professor Júlio Meneghini, diretor científico do RCGI, as professoras Suani Coelho e Dominique Mouette, coordenadoras dos projetos 27 e 25 do RCGI, respectivamente, e Karen Mascarenhas, diretora de liderança e recursos humanos da instituição. Estiveram presentes também Oscar Serrate, Drielli Peyerl e Nathalia Weber, que juntamente com Karen e outros, dedicam-se a estudar a licença social para operar de projetos de CCS no Brasil. Foi desse grupo a iniciativa de trazer a expert australiana para o RCGI. Também compareceram pesquisadores de outros projetos do Centro.