Segundo ele, pelos próximos cinco anos deve haver um enorme esforço para demonstrar que é possível fazer captura e armazenamento de carbono em grande escala, e cabe aos governos preparar esse terreno.

Professor da Princeton University, Eric Larson acredita que um dos principais gargalos para a adoção em larga escala de tecnologias de captura e armazenamento de carbono (CCS na sigla em inglês) é a liderança política. Ele esteve no Brasil em outubro para participar da Energy Transition, Research & Innovation (ETRI), conferência realizada pelo Fapesp Shell Research Centre for Gas Innovation (RCGI) na capital paulista.  À frente de um projeto chamado Rapid Switch, Larson dedica-se a estudos sobre os gargalos, as barreiras e as consequências não intencionais que podem emergir em diferentes setores e regiões do mundo no tocante à transição energética. Nesta entrevista, ele falou com exclusividade para o RCGI.

RCGI – Por que é tão importante mensurar a rapidez da transição energética?

Eric Larson – Pelas projeções de mudanças climáticas que temos, há um espaço limitado na atmosfera para assimilação desse carbono que estamos emitindo. Pelas taxas em que estamos emitindo, temos apenas alguns poucos anos antes de exaurirmos esse espaço, se não reduzirmos a taxa de emissões de CO2. Esse espaço, esse “budget”, pode ser delimitado, por exemplo, pela manutenção do aumento da temperatura da terra abaixo dos 2° C. Se quisermos tentar evitar o aumento da temperatura para além dos 2 °C, temos que trabalhar rapidamente.

RCGI – E quão rapidamente temos trabalhado?

Eric Larson – Bem, as emissões ainda estão aumentando. Então, não estamos na direção certa ainda. Estão crescendo mais lentamente, mas ainda assim crescendo.

RCGI – E quão rapidamente deveríamos andar?

Eric Larson – Tão rapidamente quanto pudermos. Só não sabemos que ritmo é esse (risos). Agora, cometeremos alguns erros ao longo do caminho, temos de estar preparados. Se quisermos ir rápido, teremos de tentar algumas coisas diferentes, paralelamente, e algumas delas falharão. E não queremos falhas catastróficas. Certamente, haverá searas em que muito esforço será feito, e não se conseguirá lograr êxito como se imaginava. Mas isso é parte do desafio: cometer alguns erros, aprender com eles e seguir em frente.

RCGI – Provavelmente alguns países irão mais rápido, outros mais lentamente. Você acha que devemos ter approaches diferentes para diferentes regiões do planeta em termos de redução de emissões?

Eric Larson – Creio que todas as regiões deveriam cortar emissões o mais rápido que puderem em seus próprios contextos. Os EUA são uma nação muito bem desenvolvida e rica, que tem a capacidade de gastar 1% do PIB – e talvez seja esse o custo mesmo – para descarbonizar o país.  Ou seja: é uma nação que tem a capacidade de absorver esse custo para se descarbonizar. Mas um país como a Índia, por exemplo, que ainda está se desenvolvendo, tem prioridades diferentes. A ideia, neste caso, seria ter em mente a descarbonização enquanto o país se desenvolve. Mas é preciso pesar o custo da descarbonização em contraposição a uma limitação econômica que pode vir a impedir o país de se desenvolver garantindo bem-estar à população. Então, acho que os países que são capazes de descarbonizar e arcar com isso deveriam liderar. A Europa está se saindo muitíssimo bem, e os EUA deveriam estar fazendo o mesmo. O Brasil está num meio termo: tem grande capacidade, mas não está no nível de desenvolvê-la ainda.

RCGI – O físico Paulo Artaxo afirmou, em sua palestra na ETRI, que as “mudanças climáticas estão mudando”: estão ficando mais rápidas. Isso tem um impacto nos seus estudos?

Eric Larson – Há dois tipos de impacto, eu diria. Um é a criação de um senso de urgência entre aqueles que estão tentando encontrar soluções. E o outro é o aumento da concentração de CO2, que provoca mudanças na temperatura e nos padrões climáticos globais. Um afeta o outro, e endereçar esses problemas transforma-se em algo ainda mais urgente. Por exemplo: alguns colegas estão preocupados com as ondas de calor cada vez mais frequentes na Índia, que já é um lugar muito quente. E a maneira imediata para endereçar esse problema, provavelmente, será o aumento do uso de aparelhos de ar condicionado. O que significa que a demanda por energia vai aumentar, e a forma como essa demanda será atendida é um tema muito importante.

RCGI – Como vocês trabalham no Rapid Swicth? Há projetos piloto? Vocês contabilizam o tempo que esses projetos demoram para “virar”? Qual é o approach?

Eric Larson – Estamos ainda tentando desenhar qual vai ser o melhor approach para problemas diferentes, como analisá-los e comunicar os resultados das análises. Porque é uma área nova, as pessoas ainda não pensaram muito a respeito do ritmo da transição energética. Temos dois projetos específicos nos EUA sob o guarda-chuva do Rapid Switch. Um deles investiga o quão rapidamente podemos descarbonizar o chamado PGM Grid, o grid elétrico responsável pela oferta de energia para a parte Nordeste do país (de Chicago a Nova York, o maior sistema único do mundo: 170 GW de capacidade).  Estão modelando o sistema para tentar entender que tipo de mix tecnológico é necessário para que o sistema seja completamente carbono free por volta de 2050, e quão rapidamente é preciso assimilá-lo. Além de análises tecno-econômicas, temos psicólogos e cientistas sociais que estão pensando nos gargalos que teremos pela frente na tentativa de alterar comportamentos, bem como mudar as instituições que gerenciam o modo de operação desse grid. Eles estão usando ferramentas que vêm da psicologia, métodos de survey, para saber quais serão os pontos de choque e o que fazer a respeito deles. No segundo projeto, estamos desenvolvendo planos a respeito do que teria de ser feito fisicamente, e também em termos de recursos humanos, para descarbonizar completamente os EUA até 2050. A ideia de fundo é que os EUA deveriam estar liderando o mundo, pois temos capacidade, e os recursos de CCS são substanciais. Há muita terra, há biomassa, somos um dos países mais aptos a liderar a transição, mas ninguém ainda chegou e disse: “olha, é isso que vocês têm de fazer nesta década, e depois nos próximos cinco anos, e nos outros cinco…”

RCGI – Mas quão fácil é estabelecer isso?

Eric Larson – Em grande medida é um exercício de modelagem. Estamos criando cenários que dizem: “você pode chegar a emissões zero em 2050 construindo tantas usinas eólicas, tantas plantas nucleares, instalando tantos painéis solares…” Para tanto, é preciso distribuir os esforços pelas regiões do país, estabelecer o que terá de ser feito em cada região, e o que serviria como solução nesse cenário mais amplo. Usamos estimativas de custo e de tempo – do tempo que levará para instalar e construir essas instalações e sistemas. Para desenhar esse quadro há muitos detalhes a considerar, e é aí que a comunicação entra. Queremos encaixar esse tema no círculo político, pois muitos candidatos democratas estão falando sobre ações climáticas agora. Se pudermos mostrar claramente e simplificadamente o que é necessário, podemos prover uma base para uma discussão mais racional sobre como a política nacional vai lidar com essa questão.

RCGI – Eu imagino que sendo os EUA um país em que os estados são muito diversos e muito independentes, do ponto de vista legal, vocês terão de desenvolver diferentes estratégias para diferentes estados. Como você vê essa questão: como um desafio ou uma oportunidade?

Eric Larson – Diferentes estados são dotados de diferentes recursos. Então, naturalmente, nos lugares em que há muito sol deveremos incentivar a solar; onde há muito vento, a eólica. Uma das complicações é conectar estados que são ricos em recursos a outros, que podem não ser. Construir linhas de transmissão será algo crítico, porque cada estado tem de aprovar a construção de uma linha que passe por seu território. E muita gente não quer vê-las em seus territórios. Como lidar com isso? Uma ideia que surgiu foi construir linhas de transmissão subterrâneas: as pessoas não as veem e isso ajuda a minimizar esse problema de percepção.

RCGI – Você diria que nos estados em que há muita produção de óleo e gás vocês encontrariam mais dificuldades para implantar essas redes?

Eric Larson – É uma pergunta interessante. Por um lado, sim, porque eles produzem óleo e gás e isso provê renda para esses estados. Mas, por outro lado… tome, por exemplo, o Texas. É o maior produtor de energia eólica dos EUA. E isso acontece porque as pessoas fazem dinheiro com essa energia. Então, se elas estão fazendo dinheiro com a energia, são muito agnósticas com relação à fonte. No caso do Texas, as fontes sempre foram o óleo e o gás, mas num contexto de transição energética, os empreendedores irão querer encontrar um meio de capitalizar.

RCGI – Nós discutimos aqui na ETRI sobre como fazer dinheiro com CCS. Você tem alguma ideia?

Eric Larson – A estocagem do carbono tem de ser valorizada pela sociedade pelos benefícios ambientais que ela traz. O que significa que tem de haver políticas governamentais. Porque a emissão de gases-estufa é uma externalidade, é uma consequência do uso de fósseis, então é necessário ter políticas para lidar com ela.  E isso requer liderança política, para encorajar e decretar ações no âmbito político.

RCGI – E em sua opinião, os EUA estão perto de encorajar esse tipo de política?

Eric Larson – Certamente não em nível federal, pois o Trump não acredita em mudanças climáticas, creio que nem sabe o que significam essas palavras. Mas o interessante é que, por conta dessa oposição do Trump, muito estados mais progressistas têm intensificado seus esforços de redução de emissões. Por exemplo: a Califórnia, o estado de New York, o estado de New Jersey, onde nasci. Eles estão aumentando seus esforços de descarbonização. De qualquer forma, cada estado tem de fazer isso de qualquer maneira. Mesmo que houvesse uma lei federal estabelecendo um mínimo denominador comum, os estados poderiam escolher fazer mais do que o estabelecido em âmbito federal, se quiserem. É difícil trazer alguns estados para esse mutirão de esforços, tais como Kentucky e West Virgínia, que são estados em que se explora carvão; provavelmente resistirão a políticas muito agressivas, então eles poderiam ficar em um mínimo estabelecido pela política federal (caso ela existisse), e adaptá-la às suas políticas estaduais. O fato é que os estados já estão fazendo isso, sem a existência de nenhuma política federal.

RCGI – O professor Owen Anderson, advogado e docente da Universidade do Texas, estava nos dizendo que, no caso da CCS nos EUA, vocês podem ter problemas com o espaço poroso (espaço existente em rochas porosas nos quais se pode estocar o carbono e outros gases). Isso por que, nos EUA, os minérios e os fósseis, como o óleo e o gás, pertencem ao dono da terra – ao contrário do Brasil, em que o óleo e o gás pertencem à União. Como se pode fazer CCS em seu país com essa configuração?

Eric Larson – A CCS ainda não está legalmente estabelecida nos EUA, e o espaço poroso é um “tipo diferente de animal” se comparado aos minérios. Para ser consistente com os direitos sobre os minérios, imagino que se fosse possível monetizar os espaços porosos, deveria ser possível obter renda dessa monetização.

RCGI – Você quer dizer alugar, por exemplo?

Eric Larson – Sim, por exemplo. Mas, novamente: isso requer políticas. Porque neste momento não há valor monetário positivo para os espaços porosos. Então ninguém pagará ao dono de uma propriedade para usar o espaço poroso do seu subsolo.

RCGI – Então você acha que depende de políticas em nível federal?

Eric Larson – Acho que essa questão vai terminar sendo estabelecida no tribunal.

RCGI – Na Suprema Corte?

Eric Larson – Pode ir ou não para a Suprema Corte, mas provavelmente os argumentos girarão em torno da questão dos espaços porosos serem ou não considerados propriedade do dono da terra.

RCGI – Temos falado muito de CCS, então eu queria saber, em sua opinião, qual o papel da CCS na transição energética e se ela pode contribuir para acelerar a transição?

Eric Larson – A curto prazo, eu diria pelos próximos cinco anos, deve haver um grande esforço para demonstrar que podemos fazer isso em grande escala. Há talvez meia dúzia de projetos em que está sendo injetado um milhão de toneladas de CO2 por ano. Parece muito, mas nem são projetos tão grandes assim. Precisamos ter muitos mais desses projetos. A outra coisa importante a fazer é inventariar as áreas potencialmente boas para estocar CO2. Não sabemos realmente quais são os melhores lugares para guardar o CO2.  Temos algumas ideias, realizamos testes, mas precisaríamos entender isso melhor. O Serviço Geológico Americano procura por reservatórios de óleo e gás de forma preliminar: eles fazem algumas perfurações, o suficiente para ter confiança de que há óleo e gás nesses reservatórios, e aí eles listam as terras para as companhias de óleo e gás. E elas têm de desenvolver o restante. No caso de estocagem de CO2, essa prospecção preliminar não é suficiente para que se saiba, com o mesmo grau de confiança, quanto CO2 seria possível guardar em cada reservatório. Portanto, há mais risco para a companhia que for realizar a atividade. Creio que isso significa que o governo tem de se esforçar mais para fazer essa exploração até o ponto em que a empresa responsável pela CCS possa ter um pouco mais de segurança para se arriscar a desenvolver a atividade no reservatório em questão. Essa exploração demora muito tempo e é cara. Deveria ser feita pelos governos, para preparar o terreno para a implementação em grande escala.

RCGI – Você crê que a CCS feita no oceano tem mais chances de ser aceita pela sociedade do que a realizada em terra (devido ao que chamamos de fenômeno “not in my backyard”)?

Eric Larson – Bem, em alguma medida isso é verdade. Mas as preocupações ecológicas se tornaram muito sérias, com muitas incertezas sobre o impacto em ecossistemas locais, no caso de se colocar CO2 em grande quantidade no oceano. Isso foi praticamente tirado da mesa. Agora, o offshore subterrâneo, abaixo do nível do solo marinho, este sim, é uma grande promessa.

RCGI – Em um dos debates da ETRI surgiu o tema da redução dos preços do petróleo, apontada por alguns como um possível driver das renováveis. Entretanto, há um temor de que isso não estimularia o desenvolvimento das renováveis, pois os preços mais baixos do petróleo acabariam encorajando um retorno aos fósseis, algo como uma espiral pouco virtuosa. O que fazer para evitar isso?

Eric Larson – É onde entram as políticas de preços de carbono. Se for estabelecido um preço para o carbono que seja alto o suficiente, e faça o preço do petróleo não parecer baixo, e sim alto, então temos um caminho. Porque o que importa é como o preço aparece para o consumidor: é isso que impacta a maneira como o consumidor usa esse combustível. Se não houver uma política para o carbono e a demanda pelo óleo cair, o preço cairá também, e ele parecerá barato. Mas se houver uma política para o carbono, mesmo no caso da demanda cair e dos preços do óleo caírem, mas as taxas relativas ao preço do carbono forem altas, então efetivamente o preço do óleo irá subir.

RCGI – E o que deveria ser levado em conta para estabelecer um bom preço para o carbono?

Eric Larson – Não acho que deveríamos nos esforçar para estabelecer um preço global para o carbono, não acho que isso vá acontecer. Creio que cada região individual deve desenvolver políticas próprias, sejam elas políticas de preços de carbono ou de regulação que limite o quanto se pode emitir, por exemplo, por setor. Todos falam sobre o preço do carbono com sendo a maneira mais eficiente de reduzir emissões mas, olhando para o mundo, percebemos que nós nunca fizemos as coisas da maneira mais eficiente.

RCGI – A Europa estabeleceu um mercado de carbono alguns anos atrás e achamos que ele iria vingar. Mas isso não aconteceu. Por que, em sua opinião?

Eric Larson – A ideia naquele momento foi estabelecer um limite de emissões e, se suas emissões ultrapassassem o limite estabelecido, você teria de adquirir créditos de carbono. E então, com o tempo, esse limite baixaria, e os créditos ficariam mais caros. Mas o estabelecimento desse limite não foi muito agressivo. Se os limites tivessem sido mais agressivos, isso teria elevado os preços muito mais. Mas, então, teria ocorrido resistência da sociedade com relação aos altos preços. É a velha história do ovo e da galinha.