Reunidos em evento do RCGI, experts em mudanças climáticas apontaram os principais gargalos para a implementação da CCS; tecnologia não é mais um problema.

O uso de tecnologias de captura e armazenamento de carbono (CCS, na sigla em inglês) tornou-se crucial para viabilizar a mitigação de gases de efeito estufa (GEEs), segundo o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC). E sua implementação não depende mais de tecnologia, algo já dominado pela ciência. As barreiras agora são convencer a sociedade de sua importância e saber como fazer dinheiro com essas tecnologias. Além disso, sua implementação massiva dependerá da superação de barreiras políticas e de governança, além dos custos, que são altos no caso da captura de carbono oriundo de fósseis, mas baixam significativamente no caso da captura de CO2 de biomassa.

Essas foram as principais conclusões de dois dias de debates entre especialistas do Brasil e do exterior, reunidos na conferência “Energy Transition, Research & Innovation”, realizada em São Paulo, nos dias 1 e 2 de outubro, pelo Fapesp Shell Research Centre for Gas Innovation (RCGI).

Entre os pesquisadores, houve um consenso de que é preciso não só educar a sociedade para a importância da CCS, mas os governos também. “O papel dos governos é crucial. Investimento em reflorestamento e em renováveis é altamente necessário. Mas, enquanto isso, temos de fazer alguma coisa. Devemos nos lembrar que a natureza não precisa de nós, mas nós precisamos dela”, afirmou Chinnakonda Gopinah, do National Chemical Laboratory, na Índia.

Segundo ele, a Índia ainda usa carvão largamente, e depende seriamente da importação de energéticos, como carvão, gás natural e petróleo. “As maiores oportunidades para CCS na Índia estão no setor de geração de energia. O governo tem planos de investir em CCS, apesar dos custos altos”, disse ele.

De acordo com a exposição de Adam Hawkes, diretor do Sustainable Gas Institute, com sede no Imperial College London, o governo pode fazer a diferença para o bem e para o mal. “Tivemos três ‘ondas’ de tentativa de implementação de CCS no Reino Unido. Na primeira, no início dos anos 2000, havia quatro projetos demonstrativos na mesa. Mas houve um atraso no calendário e o governo decidiu fazer um Front-End Engineering Design (FEED). O ambiente regulatório também mudou rapidamente, e as empresas envolvidas acabaram se retirando. Na segunda onda, que aconteceu de 2012 a 2015, o governo anunciou um montante disponível para projetos de CCS, e depois, disse que não havia mais dinheiro. Agora, em 2018, foi organizada uma força tarefa e mais um projeto foi criado, desta vez com foco em criar estruturas de CCS ao redor de hubs industriais, como Liverpool e Manchester.”

Hawkes afirma que, no Reino Unido, o governo não foi capaz de criar um ambiente confiável para a CCS em nenhum das duas primeiras tentativas. “O suporte das políticas públicas foi muito turbulento.” Para ele, mundialmente falando, as barreiras tecnológicas para a implementação de CCS são muito pequenas. “Os desafios são comerciais. E há, ainda, certa preocupação no tocante a atrair investimentos para a atividade.”

Os custos das operações de CCS são também apontados como uma barreira, uma vez que boa parte recairá sobre a sociedade, e esta ainda sabe pouco ou muito pouco sobre CCS e a necessidade de capturar carbono – e, portanto, o suporte à atividade ainda é um grande desafio. “Eu creio que não é uma questão de custo, mas fundamentalmente uma questão de valor. Enquanto a sociedade não conseguir entender o valor do abatimento de carbono, ele não vai acontecer”, afirmou Rob Littel, General Manager Gas Separation da Shell.

Eric Larson, da Princeton University, acredita que um dos principais gargalos para a CCS é a liderança política. “No momento, creio que não haverá liderança política para ações de CCS nem aqui no Brasil nem nos EUA, meu país, por motivos óbvios.”

Para o professor Julio Meneghini, diretor científico do RCGI, a disseminação de conhecimento a respeito das mudanças climáticas e da CCS pelos cientistas é fundamental e tem o poder de impactar a sociedade que, por sua vez, pode pressionar os governos. “Isso tem de ser feito passo a passo, e há muitos passos a dar até atingirmos uma sociedade descarbonizada, daqui a 30 anos. É preciso balancear as ações políticas e conversar com o governo, fazê-lo entender a importância do tema.”

CCUS – Outra maneira de ‘estocar’ carbono é transformá-lo em produtos úteis para a sociedade e a indústria, a chamada de Carbon Capture Utilization and Storage (CCUS). Alissa Park, professora da Columbia University, listou os “top 5” produtos que se pode obter a partir do CO2: concreto, combustíveis, agregados, polímeros e metano. “Aqui a questão básica é: quanto podemos obter desses produtos e como criar mercado para eles? Além de atentar para o fato de que o input energético necessário para transformar o CO2 em produtos como os químicos, por exemplo, tem de vir de uma fonte limpa”.

Ela ressaltou que atualmente é muito difícil obter licença para enterrar carbono nos EUA. “Obter permissão para fazer reinjeção é mais fácil.”

Segundo ela, a ponte tecnológica representada pela CCS e pela CCUS não é algo efêmero, mas sim uma estratégia para décadas, e para as gerações vindouras. “É preciso avançar em ciência fundamental e engenharia para entregar essas soluções. E há várias soluções. O Brasil aparentemente não está muito comprometido com CCUS, mas está bastante comprometido com bioenergia. É possível tratar de ambos conjuntamente, mas imagino que seja preciso pressionar governo um pouquinho mais.”

Segundo ela, há uma tendência de obtenção de energia a partir de gases altamente energéticos, como CO, H2 e CH4. “Esses são geralmente gases residuais produzidos por plantas de fabricação de aço, por exemplo. São biocombustíveis de nova geração, e estamos trabalhando muito com eles nos EUA.”

Preço do carbono – A precificação do carbono foi uma outra questão endereçada pelos pesquisadores e considerada chave para o ganho de escala de atividades de CCS. “Não creio que haverá um único preço para o carbono no mundo. Cada país deverá estipular um preço par ao carbono que deixa de emitir”, opina o professor Larson.

Ele capitaneia um projeto chamado Rapid Switch, que se dedica a estudos sobre os gargalos, as barreiras e as consequências não intencionais que podem vir a emergir em diferentes setores, e em diferentes partes do mundo, no tocante à transição energética. “Queremos saber como maximizar a taxa de transição energética: como fazer mais rápido”, resume o professor. Intensidade energética, materiais críticos, capacidade de recursos humanos, organização e transformação da infraestrutura são alguns dos pontos para os quais os cientistas do projeto estão olhando.

“Os EUA, por exemplo, teriam de reduzir sua intensidade energética em 75% para que conseguíssemos limitar em apenas 2° C de aumento da temperatura da Terra até 2060”, revela, explicando que a intensidade energética é a medida de uso de energia por dólar de PIB.

Quanto e onde estocar – Comparando cenários obtidos por diferentes tipos de modelagem, que têm como referência o limite de aumento da temperatura em, no máximo, 2° C até 2060, o professor Larson, deu uma ideia do quanto seria necessário estocar. “No chamado cenário 2DS, da Agência Internacional de Energia, seria necessário estocar anualmente 7 Gigatoneladas em todo o mundo. É uma quantidade substancial de CO2 para estocar.”

Segundo ele, diferentes documentos dão conta de que há muita capacidade de estocagem de CO2 no mundo. “A maioria das publicações afirma que há muito mais capacidade de estocagem do que precisamos, mesmo no cenário de 2 °C.  Mas é preciso uma maneira de ganhar dinheiro com isso, do contrário não conseguiremos ganhar escala para a atividade. Há questões a respeito de quanto dessa capacidade será utilizável realmente, e essas questões dependem de diversos fatores, como a geografia, a injeção propriamente dita, as capacidades institucionais e empresariais necessárias, entre outros. São áreas que precisamos entender melhor.”

Para Rob Littel, da Shell, há ainda uma questão de prioridades. “Penso que devemos começar pelo que é mais fácil, mais viável. O problema das emissões da aviação, por exemplo, é significativo, mas dificílimo de resolver a curto ou médio prazo. Há fontes de emissões cuja captura é mais fácil. Comecemos por elas.”

Para além do CO2 – O físico Paulo Artaxo, membro do painel do IPCC e professor da Universidade de São Paulo, ressaltou que as mudanças climáticas estão mudando, e muito mais rápido do que mostravam os modelos de dez anos atrás. “Nós nos acostumamos a olhar para o CO2, porque ele é o principal driver das mudanças climáticas, mas não é o único. É importante ampliarmos nossa visão sobre como lidar com as pesquisas na área de mudanças climáticas. O clima em nosso planeta é controlado pela concentração de GEEs, mas também por poluentes como ozônio, metano e black carbon; e é mediado por nuvens, aerossóis, pelo albedo de superfície e pela radiação do sol. É um sistema muito complexo, e temos de atentar para os diferentes feedbacks desse sistema.”

Além do mais, segundo ele, o problema não é só o clima. Este é apenas um dos problemas. “A apropriação da produção de biomassa pela espécie humana, em alguns lugares do mundo, chega a 60%, 70% da produtividade vegetal líquida primária do globo. E isso tem muitos impactos, como mudanças no carbono orgânico do solo, por exemplo. Trata-se de uma propriedade muito importante do solo, que sustenta a agricultura, a microbiota que fixa nitrogênio… Em algumas áreas da Índia, da União Europeia e até do Brasil registram-se mudanças no carbono orgânico do solo da ordem de 40%, 50%.” Ele enfatizou que, infelizmente, as emissões continuam a subir.

O evento, composto por painéis de debate, palestras e apresentação de pesquisas, teve a participação de mais de 300 pesquisadores. Estiveram presentes o secretário de Infraestrutura e Meio Ambiente do Estado de São Paulo, Marcos Penido; o vice-presidente de Tecnologias de Abatimento de Carbono de Gás e Óleo da Shell, David Torres; o vice-diretor da Escola Politécnica da USP, Reinaldo Giudice (representando a diretora Liedi Bernucci); o assessor do diretor da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), Alex Garcia de Almeida, representando o presidente da agência reguladora, Décio Oddone); o presidente da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), Marco Antônio Zago; e pró-reitor de pesquisa da USP, Sylvio Canuto, representando o reitor da universidade, Vahan Agopyan.