Todos os anos, empresa envolve funcionários e prestadores de serviço no Safety Day, que visa multiplicar a cultura da segurança; este ano, o RCGI também participou da inciativa.

Na última terça-feira (8/5), um time de pesquisadores do FAPESP SHELL Research Centre for Gas Innovation (RCGI) reuniu-se com o Gerente Regional de Colaborações para Pesquisa e Inovação da Shell, Giancarlo Ciola, em uma extensão do Safety Day, uma iniciativa que a Shell realiza todos os anos com o intuito de ajudar a fortalecer a cultura de segurança, envolvendo funcionários e prestadores de serviço. A palestra de Ciola foi realizada na sede do RCGI, nas dependências da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli-USP), em São Paulo, e foi focada em três temas: a normalização do risco, os dilemas enfrentados pelas pessoas nas instituições em que atuam e o cuidado com os procedimentos, processos e pessoas envolvidas neles.

Giancarlo Ciola

“Normalização do risco é aquilo que fazemos quando andamos de elevador ou de avião, sem nos preocuparmos com o risco de queda. Com o tempo, ficamos tão habituados e confortáveis com tais atividades que acabamos com a sensação equivocada de estarmos seguros, sem nos atentarmos aos riscos que estamos tomando”, diz Ciola. O problema, segundo ele, é quando normalizar riscos se torna padrão. “É importante observar se não estamos normalizando riscos que não deveríamos. Às vezes, quando executamos uma tarefa todos os dias, ela acaba se tornando banal e a tendência é acharmos determinados riscos inerentes a ela também banais”, explica. “Além do mais, o ser humano comete erros. E a normalização do risco somada ao erro pode gerar acidentes e resultados indesejados.”

É o caso do geólogo Colombo Tassinari, professor do Instituto de Energia e Ambiente (IEE) da USP  e coordenador do projeto 36 do RCGI, que trata de “Armazenamento de carbono em reservatórios geológicos no brasil: perspectivas para CCS em reservatórios de petróleo não convencionais “onshore” e de bacias sedimentares “offshore” do Sudeste do Brasil”. Ele diz que, muitas vezes, seu trabalho de campo implica em riscos que ele já considera normais.

“Há um mês, eu e uma equipe estivemos em algumas pedreiras para coletar amostras para um estudo. São pedreiras em que as rochas do topo estão fraturadas e caem, rolam lá de cima. Mesmo com equipamentos de segurança individuais, com capacete, com tudo, se uma pedra daquelas cai em cima de você, ela te esmaga. Então, nestes casos, ou abortamos o trabalho, ou realizamos mesmo assim. No geral, a gente prefere realizar, mesmo correndo os riscos.”

Para Alexandre Breda, coordenador técnico científico da Shell no RCGI, na impossibilidade de evitar riscos, o melhor é não realizara a tarefa. “Nós tentamos colocar barreiras para evitar o acidente, para que ele não aconteça. Mas, às vezes, não conseguimos. Nestes casos, eu sugiro que não se realize a tarefa. Porque nada vale o risco de uma vida.”

A engenheira química Liane Rossi, coordenadora do projeto 30 do RCGI (Processos inovadores para a conversão de CO2 em produtos químicos de alto valor agregado e combustíveis baseado em catalisadores híbridos), que ministra aulas experimentais em laboratório, acrescentou que há um dilema constante em sua profissão. “Muitas das atividades na engenharia química envolvem riscos. Caso aconteça alguma coisa com um aluno no laboratório, eu devo ficar com ele ou com os outros 50 que estão sob minha responsabilidade? Já vivemos diversas situações deste tipo e é sempre difícil.” Segundo ela, o Instituto de Química (IQ) da USP está normatizando procedimentos de segurança e criando uma brigada de incêndio.

O professor Júlio Meneghini, diretor científico do RCGI, lembrou que não há dispositivos nem normas de segurança nas salas de aula brasileiras. “Elas não têm saídas de emergência, nem sinalização sobre segurança. Eventos como este são importantes porque lembram a necessidade de que a preocupação com a segurança seja irradiada, se espalhe, e passe a fazer parte do dia a dia de todos.”

A palestra contou com a presença de diversos coordenadoras de projetos, como os professores Emílio Silva, Cláudio Oller, Cláudio Mueller Sampaio, Guenther C Krieger Filho e Rita Maria B Alves (Poli-USP); Edmilson Moutinho dos Santos (IEE-USP), além do diretor de comunicação e disseminação de conhecimento, Gustavo Assi (Poli-USP); e da diretora de recursos humanos e liderança, Karen Mascarenhas. Camila Brandão, representante da Shell no RCGI, também esteve presente.

Criado há cerca de dois anos com patrocínio da FAPESP e da Shell, o RCGI tem mais de 200 pesquisadores trabalhando em 45 projetos de pesquisa que buscam soluções inovadoras para os problemas tecnológicos do gás natural, biogás, hidrogênio e emissões de CO2, além de fornecer suporte para o aprimoramento de políticas públicas de energia no Estado de São Paulo, no Brasil e no mundo.