Sistema com potencial para subsidiar a gestão das cidades permite mapear diversos fenômenos urbanos; uso deverá ser público e gratuito.

Liderada pelo geógrafo Luís Antônio Bittar Venturi, uma equipe de pesquisadores do FAPESP SHELL Research Centre for Gas Innovation (RCGI) acaba de registrar a patente de uma ferramenta inédita de planejamento urbano. O sistema, registrado com o nome de Métodos de Gerenciamento de Fenômenos Urbanos e Uso do Mesmo, pode subsidiar de forma eficiente a gestão urbana, bem como o planejamento de empresas fornecedoras de serviços básicos, como energia, por exemplo. A patente sairá em nome do RCGI e a ferramenta deverá ser de uso público e gratuito, já que tanto a Shell, uma das patrocinadoras do Centro, quanto o próprio RCGI já anunciaram que irão abrir mão de eventuais direitos sobre ela.

“Criamos um sistema de mapeamento de fenômenos urbanos que fornece a dimensão espacial da ocorrência deles, classificando-os em diferentes hierarquias. As vantagens da ferramenta são muitas: ela é dinâmica, podendo ser atualizada a qualquer momento; permite fazer projeções futuras; pode ser usada para mapear qualquer tema e replicada em qualquer cidade do mundo, contanto que seja observado o contexto em que se está atuando”, adianta Venturi, coordenador do projeto nº 28 do RCGI.

Ele explica que o sistema articula elementos conceituais, metodológicos e técnicos.

“Os elementos conceituais são escolhidos com base no tema que se quer mapear. Por exemplo: vulnerabilidade energética nas residências de São Paulo, um dos mapas que criamos. O primeiro passo é estudar o conceito de vulnerabilidade, para escolher os indicadores com os quais se vai alimentar o sistema. Revisamos a literatura disponível para descobrir quais seriam os indicadores de vulnerabilidade energética que nos serviriam: número de árvores por hectare, proximidade de áreas prioritárias, se a rede é aérea ou subterrânea… Lembrando que diferentes cidades terão diferentes indicadores, de acordo com a realidade local.”

Em seguida, os indicadores são colocados em uma matriz AHP – Analytic Hierarchy Process, criada por Thomas L. Saaty.

“É um método consagrado que nos ajuda a colocar os indicadores na matriz e nos permite atribuir diferentes pesos para cada indicador. Tomando o caso da vulnerabilidade energética das residências paulistanas, sabemos que no Morumbi, por exemplo, a densidade de árvores por hectare tem mais peso do que numa área não arborizada. Por isso, a matriz organiza os indicadores com diferentes pesos.” Segundo Venturi, a dimensão científica e analítica está justamente na atribuição de diferentes pesos para cada indicador. “Não é apenas um mero procedimento técnico. A escolha é feita mediante a discussão de cada indicador no contexto da cidade em que se está atuando.”

Por fim, a matriz é inserida num ambiente SIG (Sistema de Informação Geográfica), especificamente o ArcGIS, e então se obtém um mapa.

“Mas é um mapa dinâmico, que pode ser mudado e atualizado o tempo todo. A qualquer momento é possível inserir ou mudar o peso de um indicador, que a ferramenta irá gerar um mapa mais preciso.”

Classes e cenários – O sistema tem, também, capacidade de classificação e hierarquização dos resultados.

“O Mapa de Vulnerabilidade Energética para Áreas Residenciais de São Paulo, nosso exemplo já reconhecido e noticiado nacionalmente, ordena o espaço em quatro classes de vulnerabilidade: muito alta, alta, média e baixa. É possível mapear, por exemplo, áreas de risco na cidade de São Paulo. O sistema vai fornecer uma espacialização das áreas de risco, em diferentes classes: risco mais alto, risco médio, risco baixo… Outro exemplo: mobilidade urbana. Podemos obter um mapeamento das áreas de maior e menor mobilidade…. E assim pode ser feito com abastecimento de água, violência urbana e outros fenômenos. Conseguimos mapear as áreas em que há mais ou menos violência e classificá-las quanto à intensidade do fenômeno.”

É possível, ainda, prever cenários.

“Fizemos um mapa de emissões levando em conta o que usamos de gás e eletricidade nas residências, atualmente 27% e 73%, respectivamente.  A ideia foi criar um cenário futuro considerando a paridade do uso das fontes: 50% gás e 50% energia elétrica. O que aconteceria com a qualidade do ar, uma vez que estaríamos queimando mais hidrocarboneto? Usando como base os dados do IBGE por setor censitário e por residência (quantas pessoas, em média, moram em cada residência em determinada região), criamos classes de intensidade de emissões, muito detalhadamente, por área. O detalhamento é tamanho que, dentro de um mesmo setor censitário, é possível haver várias classes. Podemos também gerar um número geral, uma média, o que foi feito, neste caso: calculamos que, se usássemos energia elétrica e gás natural em igual proporção, haveria um aumento de 2,5% nas emissões da cidade, como um todo”, revela Venturi.

O registro da patente leva os nomes de Venturi e dos pesquisadores de sua equipe no projeto n° 28: Greta Yale Lima dos Santos, Alexandre Vastella Ferreira de Melo, Felipe Ferraz Machado e Pedro Paulo Fernandes da Silva. De acordo com o coordenador do grupo, o apoio da Agência USP de inovação foi fundamental para que eles conseguissem vencer as várias etapas do processo de registro.