Em seu quarto workshop interno, centro de pesquisa com sede na Poli-USP revela vocação para estudos sobre redução de emissões de Gases-Estufa

Reduzir as emissões de gases de efeito estufa (GEEs) será o foco principal do Fapesp Shell Research Centre for Gas Innovation (RCGI) daqui para frente. A mudança de direção foi anunciada pelo diretor científico do Centro, Júlio Meneghini, durante o IV Workshop Interno do RCGI, que aconteceu nos dias 8 e 9 de março. “Fizemos uma série de visitas às melhores universidades do exterior na área de abatimento e redução de GEEs e constatamos que temos muito a contribuir nessa área”, diz Meneghini.

O RCGI possui 45 projetos de pesquisa, divididos em quatro programas:  Engenharia; Físico/Química; Políticas de Energia e Economia; e Abatimento de CO2, este último lançado na segunda metade de 2017. O novo foco das pesquisas exigirá mais esforço conjunto de planejamento estratégico por parte dos diretores dos outros três programas. Mas, segundo Meneghini, o RCGI está preparado para esse desafio.

“Uma das vantagens do Centro, desde o início de sua concepção, foi a adoção de uma estrutura mista de atuação e gestão, nem tão engessada como a das corporações, nem tão distensa quanto as estruturas acadêmicas. Em uma estrutura como a nossa, a informação flui com mais facilidade, não fica represada. Por isso, conseguimos maximizar a transferência da informação entre os pesquisadores”, afirma.

De acordo com Alexandre Breda, coordenador técnico-científico da Shell no RCGI, o mundo emite atualmente 35 Gton por ano de CO2. “Há cálculos dando conta de que, para cumprir os compromissos estipulados na COP 21, em Paris, em 2105, nosso budget máximo de emissões mundiais seja de 1 trilhão de toneladas de CO2. Mas nós já emitimos até hoje 620 bilhões de toneladas. Cogita-se que em 2036 atingiremos nosso budget”, diz ele, citando informações do site http://trillionthtonne.org/, que contabiliza as emissões mundiais em tempo real.

Alexandre Breda, coordenador técnico-científico da Shell no RCGI

 

Breda revela que a Shell assumiu o compromisso de cortar suas emissões de CO2 pela metade até 2050.

“A intensidade energética da Shell, hoje, é de 84g de CO2 por megajoule, enquanto a média mundial é de 70g de CO2 por megajoule. Queremos estar mais próximos da média mundial, por isso estipulamos essa meta ambiciosa até 2050. Ela foi bem recebida pela sociedade, mas traz uma pressão imensa para nossas operações.”

O diretor do Programa de Abatimento de CO2, Kazuo Nishimoto, lembrou que, apesar de serem muito cobradas pela sociedade, as petrolíferas são diretamente responsáveis por apenas 6% das emissões globais de CO2. “O debate acerca de como reduzir as emissões de GEEs associados às mudanças climáticas focam prioritariamente as companhias de óleo e gás. As empresas estão sob constante pressão de regulamentação e de reputação para reduzir as emissões de CO2 tanto no upstream como no downstream, e serão cada vez mais cobradas, nos próximos anos, no sentido de fornecer soluções e fazer investimentos.”

Kazuo Nishimoto, diretor do Programa de Abatimento de CO2

 

Para Nishimoto, a ênfase nas petrolíferas acontece porque, quando são adicionadas a esses 6% as emissões de CO2 dos usos finais dos produtos que elas comercializam (transporte, geração de calor e energia, por exemplo), o setor do petróleo e do gás responde por quase metade das emissões globais.

Em sua avaliação, a investida em redução de emissões deve ser vista como uma oportunidade.

“Existem investimentos para P&D oriundos do petróleo e do gás produzidos no Brasil, e há alto teor de gases de efeito estufa em todos os reservatórios do pré-sal. Além disso, o conhecimento e as tecnologias gerados a partir de sistemas de produção de gás podem ser usados em tecnologias de redução de CO2.

O RCGI, que fica sediado na Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli-USP), conta hoje com mais de 200 pesquisadores trabalhando em conjunto para solucionar problemas tecnológicos e de políticas públicas do setor do petróleo e gás. Tem uma sede própria, uma estrutura administrativa enxuta e lida com problemas reais, trazidos pela própria Shell e pelos colaboradores que se dedicam ao tema. “Por todas essas razões, o RCGI foi citado na plataforma da nova diretoria da Poli-USP, recém-eleita, como um exemplo que deve ser espelhado por outros departamentos da Escola Politécnica e até mesmo por outras unidades da USP”, disse Julio Meneghini.