Com 16 projetos de pesquisa, programa de Abatimento de Carbono investiga técnicas inovadoras para mitigação de gases de efeito estufa, incluindo iniciativas de CCS.

O novo programa do Fapesp Shell Research Centre for Gas Innovation (RCGI) tem um grande potencial de promover a transferência da tecnologia para o setor produtivo e gerar spin-off. São 16 projetos de pesquisa que visam encontrar soluções para diminuir as emissões de gases de efeito estufa (GEEs), com destaque para o dióxido de carbono (CO2). Alguns deles quebram paradigmas em termos de inovação, como o que pretende estocar CO2 em cavernas de sal.

“Um dos projetos investiga, por exemplo, a abertura de cavernas de sal no fundo do mar. Ele acaba integrando os objetivos e as pesquisas realizados em outros projetos, como o que propõe a montagem de laboratórios para análise do CO2 em estado supercrítico, ou seja, de seu comportamento termodinamicoe de suas propriedades em alta pressão e temperatura”, explica o coordenador do programa, Kazuo Nishimoto, professor da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli-USP), onde fica sediado o RCGI.

Kazuo Nishimoto

 

Há ainda, segundo ele, projetos que buscam separar o CO2 do metano (CH4). O metano é o principal componente do gás natural; entretanto, o gás natural do pré-sal tem alto teor de CO2 elevado, o que representa um desafio para seu aproveitamento, já que o dióxido de carbono é um GEE. Para separá-lo do metano, estão em desenvolvimento, por exemplo, membranas poliméricas e um separador supersônico de gases inovadores. “Se todas essas pesquisas  gerarem produtos que possam ser efetivamente usados nos campos petrolíferos, teremos bons cases de transferência de tecnologia da universidade para o mercado”, afirma.

Além do Programa de Abatimento de CO2, o RCGI possui mais três: Engenharia; Físico/Química; e Políticas de Energia e Economia. No total, são 45 projetos de pesquisa. Nishimoto chama a atenção para o projeto liderado pela professora Hirdan Katarina de Medeiros Costa, que contempla aspectos regulatórios e de impacto ambiental de atividades de Carbon Capture and Storage (CCS).

“Já há normas para CCS no mundo, o Parlamento Europeu, por exemplo, tem as suas. A comunidade internacional está preocupada com essas questões. Para nós, trata-se de uma grande chance de desenvolver tecnologias com normas brasileiras próprias  que pode ser inédito no mundo: captura de carbono com armazenamento no fundo do mar. Podemos, inclusive, importar o CO2 de outros países, estocar nessas cavernas e monetizar isto.”

P&D e empresas – Nishimoto ressalta que as oportunidades abertas com o programa derivam do fato da própria Petrobras precisar dar um destino para o razoável volume de CO2 dos campos do pré-sal. Não só ela, mas outras operadoras também, como é o caso da Shell, uma das financiadoras do RCGI.  “Em Libra, excepcionalmente, a porcentagem de CO2 no gás natural é muito alta, da ordem de 30 a 40%. Mas no campo de Lula, que já está produzindo há mais tempo – começou em 2010 –, também há um teor de 15%. Como está sendo reinjetando o gás de alto teor de CO2, esse dióxido de carbono todo está voltando para os reservatórios. Em suma: todo o CO2 que está sendo separado está sendo reinjetado, junto com parte do CH4. Então, tudo o que se vai produzir de gás, no futuro, provavelmente terá concentração de CO2 maior ainda”, alerta.

Ele lembra que o fundo de pesquisa e desenvolvimento (P&D), oriundo da produção de petróleo e gás no Brasil, prevê a obrigação contratual de investimentos em P&D por parte das concessionárias. “Isso representa uma janela de oportunidade para o desenvolvimento de tecnologias inovadoras, com as quais o Brasil pode ser líder. Nenhum outro país, segundo ele, está investindo tanto dinheiro para desenvolver tecnologias de CCS como o Brasil. “E nós temos essa verba. Precisamos aproveitá-la ao máximo. A Noruega fez isso e hoje á a maior geradora mundial de tecnologias para exploração de petróleo e gás.”

Em sua opinião, é fundamental estreitar a relação da universidade com o setor privado. “As empresas fazem parte da sociedade. E uma das funções da universidade é transferir o conhecimento para a sociedade que nos suporta. Se não desenvolvermos esse papel de levar o conhecimento para as empresas brasileiras através dos nossos formandos, todas essas tecnologias serão desenvolvidas lá fora e nós teremos de comprá-las mais caro depois, de outros. Seremos simples usuários, ou montadores, como acontece com as principais indústrias brasileiras . É preciso transformar a indústria brasileira numa indústria mais inteligente com o conhecimento gerado aqui”, finaliza.