Resultado mostra que a disponibilidade deste energético é muito relevante para  a localização de indústrias dos setores químico, cerâmico, siderúrgico e têxtil.

A disponibilidade de gás natural é relevante no processo de concentração da indústria? Qual é o seu peso? Essas foram as perguntas que moveram o economista Edgar Perlotti a realizar a análise “Concentração Espacial da Indústria: evidências sobre o papel da disponibilidade de gás natural”, publicada no início deste ano em forma de artigo na Revista de Estudos Avançados, do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (IEA/USP). Na última segunda-feira (27/11), Perlotti palestrou sobre o tema no Instituto de Energia e Ambiente da USP (IEE), a convite da professora Hirdan Katarina de Medeiros Costa, como parte das atividades desenvolvidas pelo projeto 21 do Fapesp-Shell Research Centre for Gas Innovation (RCGI).

O economista, mestre pelo IEE, trabalhou com quatro setores intensivos em uso de gás natural no Brasil: químico, cerâmico, siderúrgico e têxtil. E comparou a importância da disponibilidade de gás entre os setores de uso intensivo e não intensivo.

“Trata-se de uma análise que tenta identificar a importância da disponibilidade de gás natural no processo de concentração espacial da indústria. Eu trabalhei com a hipótese de que teríamos concentração de indústrias intensivas em gás ao redor do Gasbol. Para verificá-la, usei algumas metodologias diferentes.  A mais robusta delas, um modelo econométrico, me permitiu concluir que a disponibilidade de gás é, de fato, bastante relevante para indústrias de setores que usam o gás intensivamente, mas o mesmo não vale para as outras.”

Segundo Perlotti, neste modelo foram controladas variáveis como o peso da infraestrutura e da qualidade de mão de obra na localização das indústrias. Mas há ressalvas e elas se referem a variáveis que o modelo econométrico não consegue controlar e que também incidem sobre a decisão de localização de uma planta industrial.

“Neste trabalho eu analisei o Brasil todo. Procurei fazer diversos controles no modelo, de forma a ter o resultado mais limpo possível. Mas não se consegue controlar tudo. Por exemplo: a guerra fiscal é uma variável que influencia a localização de uma indústria. E, nesta análise, não consegui controlá-la.”

São Paulo – Agora, Perlotti quer reproduzir a metodologia para avaliar o Estado de São Paulo, e incluir o preço no modelo. “Há três distribuidoras de gás no Estado de São Paulo, cada uma detém a concessão em regiões diferentes. Eu quero saber agora se a política de precificação de uma área de concessão faz com que a indústria migre ou flua naquela direção. Isso ajuda a entender a competição entre elas, se existir tal competição. A grande pergunta é: elas competem via preço?”

Segundo ele, especial atenção será dada à divisa entre o Vale do Paraíba e a Grande São Paulo. “Eu quero investigar se está acontecendo migração de indústrias de um lugar para o outro. Porque as condições de infraestrutura e mão de obra são muito semelhantes. Nessas condições, será que o preço que uma distribuidora faz pode atrair uma empresa para sua área de concessão? É isso que quero saber. Trabalho com a hipótese de que o preço seja relevante, sim, e de que exista competição entre elas, via preço.”

O economista vai avaliar tanto a migração de indústrias dentro do Estado quanto a instalação de novas indústrias. “O efeito que mais importa, para mim, é a migração, pois é ele que me mostra o peso que a disponibilidade do energético tem para um empreendimento. O outro efeito é importante, porque dá uma medida de desenvolvimento econômico, mas a indústria, ao nascer, tem mais flexibilidade para se alocar. A indústria já instalada tem menos flexibilidade: e se, mesmo assim, ela decide se realocar, é porque a variável ‘disponibilidade energética’ é muito significativa.”