A geóloga Cristina Rodrigues, professora da Universidade Fenando Pessoa (Portugal), veio ao Brasil para uma palestra no Instituto de Energia e Ambiente (IEE/USP), a convite do Fapesp Shell Research Centre for Gas Innovation (RCGI). Graduada pela Universidade do Porto, a pesquisadora se especializou em cartografia estrutural e obteve seu doutorado abordando aspectos do metano em camadas de carvão. Com uma vasta produção científica na área, ela participou da elaboração e da adaptação da diretiva do Parlamento Europeu e do Conselho da União Europeia sobre CCS, publicada em 2009.

Nesta entrevista ao RCGI, a pesquisadora afirma que as camadas de carvão são as melhores opções em termos de armazenamento de CO2. E ressalta que as tecnologias de CCS (sigla em inglês para captura e armazenamento de dióxido de carbono) são absolutamente necessárias para alcançar as metas de reduções de emissões estipuladas na Conferência das Partes, em Paris, em 2015.

 

RCGI – Em sua apresentação no IEE/USP você disse que as camadas de carvão são excelentes depósitos para CO2. Poderia explicar por que?

CR – A atividade de sequestro e armazenamento de CO2 leva em consideração diversas variáveis, tais como a capacidade de armazenamento das estruturas geológicas e taxas de injeção do CO2, e a viabilidade em termos econômicos que, entre outros fatores, depende da distância entre os locais de produção e os considerados adequados para o armazenamento de CO2. No tocante à capacidade de armazenamento, as camadas de carvão são, sem dúvida, os melhores depósitos entre todos os que conhecemos, tanto convencionais (que incluem aquíferos salinos profundos e reservatórios de óleo e gás exauridos) quanto não convencionais (camadas de carvão e reservatórios de gás de folhelho, ou gás de shale). Em termos econômicos, nem tanto, porque esses reservatórios não convencionais têm baixa permeabilidade. Quanto maior a permeabilidade, melhor é a circulação do gás no reservatório. Então, o que acontece é que teremos mais gastos com a injeção do CO2 em depósitos menos permeáveis. Entretanto, a tecnologia vem evoluindo muito e isso tem permitido um incremento no uso de reservatórios não convencionais. Eles já começam a se tornar viáveis economicamente. 

 

RCGI – E o que faz das camadas de carvão as melhores opções em termos de armazenamento?

CR – O carvão é uma rocha sedimentar, a mais peculiar que existe, porque tem uma quantidade enorme de matéria orgânica. Para ser chamada de carvão uma rocha tem de ter pelo menos 50% de matéria orgânica. Essas camadas variam em espessura, dependendo das condições em que se formaram, e podem estar intercaladas com argilitos, folhelho e outras rochas sedimentares. Quanto mais componentes orgânicos essas camadas de carvão tiverem, melhor irão armazenar o CO2. Isso porque o dióxido de carbono tem muita afinidade com a matéria orgânica do carvão e o armazenamento se dá por adsorção: as moléculas dos fluidos se agarram às paredes dos poros da matéria orgânica do carvão devido à alta afinidade com a estrutura orgânica do reservatório. Nestes casos, o fluxo do gás – na na realidade uma mistura de metano, nitrogênio, dióxido de carbono e, em menor proporção, hidrocarbonetos pesados – depende da concentração de cada um dos componentes dos gases na mistura gasosa, da pressão gradiente dos diferentes componentes dessa mistura e de suas interações com a estrutura orgânica do reservatório, bem como dos efeitos da propriedade orgânica de encolhimento e inchaço dos poros do reservatório. E o CO2 tem mais capacidade de compressão do que o metano, por exemplo, que é um fluido que todos os tipos de carvão do mundo naturalmente produzem e armazenam.  

 

RCGI – E em matéria de segurança, como você classifica as camadas de carvão?

CR – A melhor solução em termos de segurança é o carvão. A ligação entre o CO2 e a estrutura orgânica é excelente. É o processo de adsorção que faz com que o CO2 fique colado à estrutura do carvão, fisicamante preso a ele, desde que se mantenha pressão suficiente (pressão crítica de desorção), o que irá manter o gás armazenado de forma permanente. É importante referir que 95% a 98% do gás fica armazenado no estado adsorvido no carvão e que só os restantes 2% a 5% é que fica armazenado nas fraturas, no estado absorvido ou livre. Apenas esta pequena percentagem é suscetível de escapar novamente para a atmosfera, se não forem tomadas as medidas certas de aprisionamento.   

 

RCGI – Existem condições que tornam um reservatório de carvão “ótimo” para armazenar carbono?

Eu não usaria a palavra “ótimo”, mas posso dizer que existem qualidades diferentes de carvão. Os que ocorrem no hemisfério Norte têm camadas mais espessas e possuem menos componente mineral e mais componente orgânica do que aqueles que ocorrem no hemisfério Sul. Os componentes minerais dificultam a circulação do gás no interior do reservatório e competem com o CO2 por espaço na camada de carvão. No Brasil, a Bacia do Baixo Paraná é o local cujas reservas têm maior possibilidade de se tornarem repositórios de CO2. 

 

RCGI – Excetuando-se as camadas de carvão, quais seriam as melhores opções para estocagem de CO2?

CR – Podemos dizer que há três opções na mesa: reservatórios de gás de folhelho, camadas de carvão e poços petrolíferos já em fase de despressurização, nos quais é preciso injetar fluidos para que continuem a produzir. Atualmente, é muito raro que as empresas façam o sequestro do CO2 meramente para armazená-lo – tanto em reservatórios “naturais”, como as camadas de carvão, quanto naqueles construídos especificamente para este fim, como as cavernas de sal, por exemplo. No atual estágio, o mais viável é usar o CO2 para recuperar mais petróleo e mais gás natural em reservatórios que precisam de “um empurrãozinho” para continuar a produzir.

 

RCGI – E, neste caso, o que pode ser recuperado a partir da injeção de CO2 em camadas de carvão?

CR – A injeção de CO2 no carvão pode ser usada para recuperar metano de uma camada de carvão. Isso é feito em três etapas: primeiro captura-se CO2 de uma fonte emissora, depois ele é comprimido e, então, injetado no carvão para recuperação de metano.

 

RCGI – Você participou da elaboração e da trasladação (adaptação para a realidade de cada país) da diretiva do Parlamento Europeu e do Conselho da União Europeia sobre CCS. Qual é a posição da UE sobre o CCS?

CR – O que está estabelecido é que é impossível atingir as metas de redução de emissões que estão definidas sem a aplicação de CCS. Na Europa, particularmente, uma das opções de armazenamento que as empresas têm considerado muito são os aquíferos salinos. Neles, o CO2 fica dissolvido na água salina. Porque a realização de CCS hoje é uma imposição do Parlamento Europeu. As grandes emissoras de todos os setores serão obrigadas a fazer. A Comissão Europeia concluiu que não é possível cumprir as metas sem essas iniciativas. Até mesmo a Carbon Capture and Utilization (CCU), que estava vetada até outro dia, está sendo incentivada hoje.

 

RCGI – Quantos projetos de CCS existem hoje em operação no mundo?

CR – Bem, se pensarmos em megaprojetos que visam neutralização de carbono, podemos contar entre 25 e 30, a maior parte nos EUA, Canadá, Europa e Ásia. Agora, projetos menores, à escala piloto, há pouco mais de 60.

 

RCGI – Você também afirmou, ao falar sobre os reservatórios não convencionais em evento no IEE, que o fraturamento hidráulico é uma técnica utilizada desde a década de 70 do século passado. Entretanto, ainda existe muita dúvida e muita relutância por parte da sociedade em geral a respeito do fracking. A que você atribui essa postura?

CR – Em primeiro lugar, à falta de informação. As pessoas acham que, se fizermos fracking, vão abrir a torneira de casa e a água vai sair pegando fogo. Não é assim. É um fraturamento controlado, usado desde a década de 1970 tanto em poços convencionais quanto não convencionais para “dar uma ajudazinha” na retirada do combustível explorado, complementarmente à reinjeção de metano ou outra substância fluida que ajude a retirar o produto energético do reservatório. Uma tecnologia utilizada para fazer o fluido circular melhor em reservatórios de baixa permeabilidade, tanto convencionais quanto não convencionais. Só que usada com mais frequência nos reservatórios não convencionais porque, como eu já disse, neles a permeabilidade é menor.

 

RCGI – Você é uma defensora dos combustíveis fósseis?

CR – Eu acredito que ainda precisaremos deles por muito tempo – e, de fato, todas as previsões nos dizem que temos, no mínimo, mais 50 anos de uso de fósseis. Sobretudo, nós precisamos de energia, pois a demanda energética no mundo só faz crescer. Por conta do aumento população mundial e da qualidade de vida dessa população, do uso de tecnologias, gadgets, eletrônicos… Tudo isso requer mais disponibilidade de energia. Então, eu creio que devemos usar as possibilidades que temos, minimizando os problemas causados ao ambiente. Não temos tecnologias de renováveis desenvolvidas suficientemente para suprir a demanda do mundo. Isso, hoje, é absolutamente impossível. Pode ser que tenhamos daqui a 60, 70, 80 anos. Hoje, precisamos de todas as energias. E todas têm o seu impacto. As tais “energias limpas” não existem. Existem aquelas cujos efeitos o ser humano consegue ver, e aquelas cujos efeitos ele não vê. A identificação desses efeitos depende sempre da escala de observação.