Em workshop organizado pelo RCGI e pelo ICDK, experts brasileiros e dinamarqueses discutem tecnologias de obtenção do combustível no Brasil, cujo potencial de produção é de 80 milhões de m³ por dia.

O potencial brasileiro de produção de biometano é de 80 milhões de metros cúbicos (m³) por dia, de acordo com a Associação Brasileira de Biogás e Biometano (Abiogás). Se viabilizado, o uso desse gás seria equivalente a 24% da demanda por energia elétrica do País e a 44% da demanda total de óleo diesel. Os números foram apresentados no workshop “Diálogos entre o Brasil e a Dinamarca acerca dos benefícios da produção de biogás/biometano e suas aplicações”, coordenado pela professora Suani Teixeira Coelho, docente do Instituto de Energia e Ambiente (IEE) e pesquisadora do Fapesp Shell Research Centre for Gas Innovation (RCGI). Organizado pelo RCGI em parceria com o Innovation Centre Denmark (ICDK) e com o Innovation Network For Biomass (INBIOM), o evento reuniu experts dos dois países no auditório do IEE no último dia 24.

Professora Suani Teixeira Coelho

“Acreditamos que o biogás da biomassa tem enorme potencial. É uma área que ainda está se desenvolvendo. Na Dinamarca, temos 40 anos de experiência de produção de biogás a partir da biomassa. Esperamos poder compartilhar experiências e colaborar para incrementar o debate sobre o tema no Brasil”, afirmou Stina Nordsborg, diretora do Innovation Centre Denmark, instituição ligada ao Ministério de Relações Exteriores da Dinamarca.

Stina Nordsborg, diretora do Innovation Centre Denmark

 

Lá, o biogás é usado principalmente para geração de eletricidade e para fins de aquecimento. “A Dinamarca será, provavelmente, o primeiro país do globo a banir definitivamente os combustíveis fósseis.  E a biomassa é o maior driver de energias renováveis dos próximos dez anos”, disse Jens Bo Holm-Nielsen, da Universidade de Aalborg.

Segundo ele, a maior parte do biogás usado naquele país (65%) vem da agricultura, sendo a beterraba sacarina (sugar beet) a principal fonte de origem do energético. Outros 53% vêm de efluentes de estações de tratamento de esgoto, 28% de aterros sanitários e 6% da indústria. “O potencial brasileiro para geração de biogás a partir de biomassa é enorme, pois vocês são grandes produtores agrícolas.” Para se ter uma ideia desse potencial, basta dizer que o Brasil produz, por ano, 150 milhões de toneladas de palha de cana, que poderiam ser usadas para produção de biogás. Isso sem contar o setor de produção de alimentos.

Jens Bo Holm-Nielsen, da Universidade de Aalborg

 

Fontes de biomassa – No Brasil, o maior potencial de produção de biogás está no setor sucroenergético (56 milhões de m³/dia). Na sequência vem o setor de produção de alimentos (17 milhões de m³/dia) e, por fim, o setor sanitário (7 milhões de m³/dia). “São Paulo tem o maior potencial de produção de biogás e biometano a partir da indústria da cana, sobretudo da vinhaça, um refugo da produção de etanol. Considerando-se a safra 2015/2016 seria possível produzir 302.848 m3/h de biogás e 151,424 m3/h de biometano, com potencial de geração de 4.133 GWh/ano de energia”, resumiu Suani Coelho, que coordena um projeto no RCGI com a finalidade de mapear o potencial de produção do biogás e do biometano no Estado de São Paulo.

Para o subsecretário de Energias Renováveis de São Paulo, Antonio Celso de Abreu Júnior, o biogás e o biometano podem ajudar a manter o perfil renovável da a matriz energética do Estado. “Em São Paulo, 58% da matriz energética é renovável. Temos, hoje, um volume estimado de produção de biogás que poderia suprir 20% de nossa demanda por energia elétrica. Portanto, o Estado tem todo o interesse em ter o biogás em sua matriz energética.”

Antonio Celso de Abreu Júnior, subsecretário de Energias Renováveis de São Paulo

 

Suani Coelho ressaltou que o momento é propício para a discussão sobre biometano, tanto que estão sendo estabelecidas políticas para a injeção desse energético nas redes de gás canalizado. Além disso, hoje, há maior diálogo entre academia, setor produtivo e governo. “Estamos envolvidos com bioenergia há 20 anos. E, no início, tínhamos receio de tratar com as empresas, e elas com a gente. Agora, as coisas estão mudando: conversamos com as empresas, com os governos. Há uma rede de atores pensando conosco, há colaboração.”

Regulamentação – Os resultados desse esforço conjunto vêm aparecendo com mais vigor no plano das normativas engendradas para o setor. Em junho, a Agência Nacional de Petróleo, Gás e Biocombustíveis (ANP) estabeleceu regras para o controle de qualidade e a especificação de biometano oriundo de aterros sanitários e de estações de tratamento de esgoto para uso veicular, residencial, industrial e comercial – uma regulamentação há muito esperada.

Em São Paulo, no final de julho, a Agência Reguladora de Saneamento e Energia do Estado (Arsesp) deliberou a regulamentação das condições de distribuição de biometano na rede de gás canalizado do Estado de São Paulo (deliberação nº 744/2017). Essa medida estabelece as regras para que o biometano fornecido pelos produtores possa ser inserido na rede pública de gás canalizado. Nas próximas semanas, o Estado de São Paulo irá definir e publicar o percentual de biogás que deverá ser injetado na rede paulista. “Estamos elaborando uma legislação que torna obrigatório um percentual de biogás na rede paulista. Provavelmente, isso será feito de forma escalonada, começando em 2020 com um percentual X e aumentando de quatro em quatro anos”, adiantou Abreu Júnior.

Pegada de carbono – O diretor científico do RCGI, Julio Meneghini, ressaltou as possibilidades de cooperação entre pesquisadores brasileiros e dinamarqueses com um objetivo nobre. “Creio que é possível compartilhar objetivos de pesquisa e que a colaboração entre os dois países possa nos ajudar a fazer o melhor possível para reduzir emissões.”

Professor Julio Meneghini, diretor científico do RCGI

 

Alessandro Gardemann, presidente da Abiogás e diretor da Geoenergética, lembrou que a pegada de carbono do biometano é uma das menores entre os energéticos conhecidos. “Tenho certeza de que temos uma das mais baixas pegadas de carbono entre os combustíveis disponíveis. Analisando a pegada de carbono do ciclo de vida de vários energéticos concluímos que, enquanto o diesel emite mais de 100 gCO2eq/MJ e o gás natural veicular mais de 80 gCO2eq/MJ, o biometano tem uma emissão negativa: algo em torno de – 20 gCO2eq/MJ.” A comparação inclui diesel, gás natural veicular, eletricidade gerada a partir de gás natural, biodiesel e eletricidade gerada a partir do sol e do vento.

Alessandro Gardemann, presidente da Abiogás e diretor da Geoenergética

 

Ele enfatizou a importância do biometano na redução de gases de efeito de estufa (GEEs). “A substituição de 47% do diesel queimado em 2015 por biometano teria reduzido em 74% as emissões relativas à queima de diesel naquele ano. Isso corresponde a 17% das metas de redução brasileiras.”

Biorefinarias integradas – Jin Mi Trioli, da University of Southern Denmark, ressaltou que o biogás pode ser produzido a partir do bagaço de qualquer cultura. “Identificamos 92 tipos de biomassa de plantas com potencial para gerar metano. Mas o potencial do bagaço regride com a estocagem: após dez meses, o potencial de geração de metano é reduzido em 19%.”

Jin Mi Trioli, da University of Southern Denmark

 

Ela também apresentou o conceito de biorefinarias integradas. “Estamos propondo usinas integradas, com zero emissões, o que pode ser bastante útil para o Brasil, onde a produção de etanol tem uma pegada de emissões de metano e o uso da vinhaça como fertilizante emite NO2.” A ideia das usinas integradas é a produção sequencial de biocombustíveis e biofertilizantes, reduzindo as emissões de GEEs. “Uma biorefinaria integrada evitaria as emissões do etanol”, afirmou  Trioli.

O evento, que foi fechado com a apresentação de diversos cases, contou ainda com as palestras de Rikke Lybeak, da Universidade de Roskilde; Pietro Sampaio Mendes, da Agência Nacional de Petróleo Gás Natural e Biocombustíveis (ANP); Claudio Oller, um dos diretores do programa de Físico-Química do RCGI; Gilberto Martins, da Universidade Federal do ABC (UFABC); Bruno Carmo, vice-diretor científico do RCGI; Alastair James Ward, da Universidade de Aarhus; Samuel Melegari, da UNIOESTE; Pedro Paixão, gerente de aplicações da Cabot Brasil; Michael Støckler, do Agro Business Park; Aurélio de Souza, da Usinazul; e Felipe Souza Marques, do CiBiogas.

Foto dos envolvidos e alguns participantes em visita ao prédio do RCGI